Após um mês de março marcado por forte aversão a risco e deterioração das condições financeiras globais, abril trouxe uma recuperação relevante dos ativos de risco, sustentada principalmente pela redução parcial das tensões geopolíticas no Oriente Médio e pela percepção de que o choque sobre a oferta global de petróleo não evoluiria, ao menos por enquanto, para um cenário de ruptura prolongada.
O anúncio do cessar-fogo temporário entre Estados Unidos e Irã, aliado à reabertura parcial do Estreito de Ormuz, foi o principal catalisador para a melhora do sentimento de mercado ao longo do mês. Ainda que o possível acordo permaneça cercado de incertezas e elevado grau de fragilidade diplomática, o simples afastamento do cenário mais extremo observado ao final do primeiro trimestre foi suficiente para desencadear uma recomposição importante dos ativos globais. Nesse contexto, abril foi marcado por uma recuperação expressiva das bolsas americanas e estabilização do dólar. O S&P 500 e o Nasdaq voltaram a renovar máximas históricas, impulsionados pela combinação entre resultados corporativos acima do esperado, continuidade do tema de inteligência artificial e percepção de resiliência da economia americana.
Ainda assim, os efeitos do choque energético seguem presentes. O petróleo permaneceu negociando em níveis elevados ao longo do mês, refletindo tanto os riscos associados ao conflito no Oriente Médio quanto a crescente percepção de que o ambiente geopolítico global continuará estruturalmente mais instável nos próximos anos. A volatilidade observada nos contratos de energia ao longo de abril ilustra precisamente esse cenário: o mercado passou a atribuir menor probabilidade a uma interrupção severa da oferta, mas segue exigindo prêmio relevante para carregar esse risco.
Nos Estados Unidos, os dados econômicos continuaram reforçando a narrativa de resiliência da atividade. O mercado de trabalho permaneceu sólido, os indicadores antecedentes de atividade sustentaram expansão moderada e o início da temporada de resultados corporativos surpreendeu positivamente, especialmente entre as grandes empresas de tecnologia e comunicação. As big techs voltaram a apresentar crescimento robusto de receitas e manutenção de investimentos elevados em infraestrutura ligada à inteligência artificial, reforçando a percepção de que o tema segue sendo um dos principais motores estruturais do mercado.
Ao mesmo tempo, a inflação continua demandando cautela. Além da persistência da inflação de serviços, os efeitos secundários da alta do petróleo começaram a pressionar gradualmente segmentos ligados a energia, transporte e logística. Diante desse quadro, o Federal Reserve manteve postura cautelosa ao longo do mês. O mercado praticamente eliminou a expectativa de cortes de juros em 2026, passando a incorporar de maneira mais consistente um cenário de juros elevados por período prolongado.
No Brasil, os ativos domésticos apresentaram desempenho mais fraco ao longo do mês, refletindo a combinação entre deterioração do apetite a risco global, realização de lucros e maior sensibilidade das empresas domésticas ao ambiente de juros elevados. O Ibovespa encerrou o período em queda, apesar do suporte parcial vindo da valorização das commodities e da manutenção do fluxo estrangeiro para setores ligados a petróleo, mineração e exportadoras. O movimento foi ainda mais negativo entre as ações de menor capitalização (small caps), que sofreram pressão adicional diante do cenário financeiro mais restritivo e da pior dinâmica das empresas mais dependentes da atividade doméstica e do custo de financiamento. No câmbio, o real apresentou volatilidade moderada, mas sem deterioração significativa, sustentado pelo diferencial de juros ainda elevado e pela percepção de que o Brasil permanece relativamente favorecido em um contexto de preços elevados de commodities.
No plano macroeconômico doméstico, os dados continuam apontando recuperação gradual da atividade após a desaceleração observada no final de 2025. Por outro lado, a inflação segue pressionada, especialmente no componente de serviços, limitando o espaço para um ciclo mais intenso de flexibilização monetária. Nesse contexto, o Banco Central manteve comunicação prudente, reforçando a necessidade de condução calibrada da política monetária diante de um cenário externo ainda desafiador. No ambiente político, as discussões em torno da sucessão presidencial de 2026 seguem ganhando relevância crescente para o mercado. As pesquisas recentes continuam indicando aumento da competitividade da oposição, enquanto os índices de aprovação do governo vigente seguem pressionados. Até o momento, o mercado interpreta essa dinâmica como potencialmente favorável à redução do prêmio de risco doméstico no médio prazo.
Seguimos com postura equilibrada nos portfólios. Continuamos enxergando atratividade relevante no carrego da renda fixa doméstica, especialmente diante de níveis historicamente elevados de juros reais. Ao mesmo tempo, mantemos exposição seletiva a ativos de risco, na alocação doméstica e internacional. Embora abril tenha sido marcado por uma recuperação dos mercados, entendemos que o cenário global segue desafiador, com níveis ainda elevados de incerteza macroeconômica e geopolítica. A persistência de tensões internacionais continua representando um risco relevante, sobretudo pelo potencial de gerar novas pressões inflacionárias e limitar o ritmo de flexibilização monetária nas principais economias.
Em contrapartida, episódios recentes de volatilidade também têm contribuído para uma reprecificação mais racional dos ativos, abrindo oportunidades seletivas de alocação para investidores com visão de longo prazo e abordagem disciplinada na construção de portfólio. Acreditamos que 2026 continuará sendo um ano marcado por transições estruturais importantes: reorganização geopolítica, juros estruturalmente mais elevados, desaceleração gradual da economia global e aceleração dos investimentos em inteligência artificial. Em ambientes dessa natureza, diversificação, seletividade e disciplina permanecem fundamentais.
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