A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), instituição estatal de ciência e meteorologia dos EUA, declarou em junho de 2026 a presença do El Niño no Pacífico equatorial, com previsão de intensificação no segundo semestre.
No Brasil, a ata da 279ª reunião do Copom já listou o fenômeno como risco altista para a inflação de alimentos e energia, e parte do mercado já incorpora possíveis disrupções econômicas causadas pelos impactos climáticos, especialmente no contexto da evolução do IPCA.
O que é o El Niño
O El Niño é a fase quente do fenômeno oceânico-atmosférico El Niño–Oscilação Sul (ENOS), e consiste no aquecimento anormal de um trecho de água no oceano Pacífico equatorial.
Em condições normais, a dinâmica dos ventos ajuda a dissipar as águas quentes de leste para oeste. Quando esses ventos enfraquecem, a água quente se espalha para o centro e o leste do oceano e eleva a temperatura da superfície do mar. O calor reorganiza nuvens, ventos e a circulação atmosférica, e esses efeitos se propagam por regiões distantes no globo. É desse modo que um aquecimento no oceano Pacífico altera o regime de chuvas e a temperatura no Brasil.
O diagnóstico recente
Em junho de 2026, a NOAA emitiu aviso de probabilidade elevada de ocorrência do fenômeno. No começo de julho, o diagnóstico se aprofundou: a agência aponta 81% de chance de o fenômeno ser mais forte do que o esperado anteriormente, com intensidade máxima entre outubro e dezembro.
Diversas métricas de institutos meteorológicos brasileiros corroboram a agência americana. A nota técnica conjunta do INPE, INMET, FUNCEME e CENSIPAM também atribui probabilidade superior a 80% de o fenômeno se configurar no segundo semestre, podendo se estender até o início de 2027. O diagnóstico depende da identificação de três meses de anomalias nas temperaturas médias da faixa equatorial do Pacífico — de pelo menos 0,5 ºC.
Impactos sobre a inflação
O El Niño afeta temporariamente o clima em boa parte do planeta de formas distintas, mas é consenso que o impacto esperado sobre economias emergentes tende a ser potencialmente inflacionário, via encarecimento das commodities agrícolas. A pressão é maior em economias com elevada participação do componente de alimentação em seus índices de preços — como é o caso brasileiro: o grupo “Alimentação no domicílio” representa cerca de 15% do IPCA.
Nesse contexto, a alta probabilidade de um El Niño forte no quarto trimestre impõe um risco inflacionário altista para a política monetária, especialmente considerando a aceleração da inflação de alimentos no primeiro semestre deste ano. Há, também, um impacto secundário sobre os preços de energia, associado ao esgotamento dos reservatórios das usinas hidrelétricas.
Nem todas as regiões e culturas agrícolas do Brasil reagem da mesma forma. Os impactos são bastante heterogêneos entre as regiões — o que torna qualquer estimativa agregada uma aproximação grosseira.
Para analistas do Citi, as mudanças hídricas são mais certas sobre o Sul, onde há aumento das chuvas, e sobre o Norte/Nordeste, onde deve haver escassez. Sobre o Sudeste, os impactos são incertos. Nesse contexto, o Citi considera um impacto inflacionário total de até 2 p.p. sobre o IPCA deste ano, principalmente por conta de alimentos. O impacto sobre a energia é mais incerto, uma vez que a região mais importante para a geração hidrelétrica é, justamente, o Sudeste.
Alves et al (Tullett Prebon, 2026) testaram tanto o impacto do fenômeno sobre os preços de energia elétrica e alimentos quanto se o mercado está precificando corretamente esses efeitos na curva de juros. Os testes econométricos apontam para um impacto de curto prazo de cerca de 1% sobre o componente de Energia Elétrica, enquanto o impacto acumulado sobre Alimentos in Natura chega a 3,7%. Os autores sugerem, ainda, que o Boletim Focus e a inflação implícita ainda não precificam completamente os efeitos esperados sobre a inflação acumulada ao final de 2026.
O balanço de riscos do Copom
O balanço de riscos passou a ter assimetria altista na ata da 279ª reunião, com menção explícita aos riscos do El Niño para a agricultura e a energia. Isso ocorre em um pano de fundo de IPCA acumulado em 12 meses a 4,63%, pressionado também por componentes de Serviços e por expectativas desancoradas.
As projeções do próprio Comitê se moveram de forma expressiva entre as reuniões de abril e junho:

Tudo isso dá respaldo à noção de que o Banco Central terá pouco espaço para cortar a Selic intensamente neste ano — e de que o clima, historicamente tratado como ruído, virou variável de política monetária.
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