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Conflito EUA–Irã: contexto, impactos e posicionamento

Nossa leitura inicial da escalada militar no Oriente Médio, o que sete conflitos anteriores ensinam sobre os mercados e o que muda para a economia brasileira.

4 de março de 2026 8 min de leitura

Neste último final de semana, os mercados financeiros globais foram impactados por uma escalada militar significativa no Oriente Médio. Diante da relevância do evento e de seus potenciais desdobramentos sobre os portfólios, julgamos oportuno compartilhar nossa leitura inicial do cenário, os impactos observados até o momento e as diretrizes que nortearão nossas decisões nos próximos dias.

É fundamental reconhecer que a evolução de conflitos militares é altamente imprevisível. Não há como antecipar com segurança os próximos passos: seja uma escalada, uma mediação diplomática ou uma resolução rápida. Por isso, nossa abordagem se baseia em cenários, probabilidades e gestão de risco — e não em previsões categóricas.

Contexto geopolítico

Na madrugada do último sábado (01/03), Estados Unidos e Israel conduziram uma operação militar conjunta de grande escala contra o Irã, denominada Operation Epic Fury. Os ataques tiveram como alvos instalações nucleares, bases militares e infraestrutura de defesa iraniana. O líder supremo iraniano, Aiatolá Ali Khamenei, foi morto durante a operação.

Em retaliação, o Irã lançou ataques com mísseis e drones contra alvos em Israel e em bases americanas situadas em diversos países do Golfo Pérsico, incluindo Arábia Saudita, Catar, Emirados Árabes, Kuwait e Bahrein. O Irã também anunciou o fechamento do Estreito de Ormuz, a principal rota marítima para o transporte de petróleo no mundo.

Impactos imediatos nos mercados

Desde a eclosão do conflito até o fechamento de mercado do dia 03 (terça-feira), observamos os seguintes movimentos, todos consistentes com o padrão histórico de reação a choques geopolíticos:

Reação dos ativos — de 01/03 a 03/03
Ativo Variação
S&P 500 −0,90%
DXY (dólar global) +1,48%
Ouro −3,60%
Petróleo (Brent) +11,11%
Ibovespa −3,01%
Dólar × Real +2,87% (de R$ 5,13 para R$ 5,27)

Fonte: dados de mercado até o fechamento de 03/03/2026.

Esses movimentos são consistentes com o que historicamente se observa nos primeiros dias após choques geopolíticos: estresse generalizado e busca por proteção. Vale ressaltar o papel do dólar como hedge importante e sólido — o único ativo que realmente serviu como proteção nesse momento, mesmo com toda a narrativa de desvalorização da moeda americana e do rali recente dos metais preciosos.

O que aprendemos com conflitos anteriores

Em cenários de guerra, é extremamente difícil prever o que acontecerá daqui para frente. Por isso, recorremos à análise de conflitos anteriores para identificar padrões prováveis — mas, naturalmente, não garantidos. A tabela sintetiza o comportamento da bolsa norte-americana, do petróleo e do dólar em sete conflitos relevantes no Oriente Médio.

Retornos após o evento — S&P 500, WTI e DXY
Conflito S&P 500 Petróleo (WTI) Dólar (DXY)
1 sem 1 mês 6 m 12 m 1 sem 1 mês 6 m 12 m 1 sem 1 mês 6 m 12 m
Guerra do Golfo (1990) −3,3% −8,2% −2,1% +10,1% +11,1% +18,2% −7,7% −7,7% −0,0% −1,3% −5,7% +7,3%
11 de Setembro (2001) −11,6% −0,2% +6,7% −18,4% −3,8% −18,6% −9,3% +6,7% −1,3% −0,7% +3,0% −6,5%
Guerra do Iraque (2003) −0,8% +1,9% +18,7% +26,7% +6,2% +7,9% −5,0% +29,4% −0,5% −1,5% −4,4% −12,2%
Ataque a Aramco (2019) −0,5% −1,4% −20,7% +12,5% +5,9% −2,3% −47,7% −32,1% +0,3% +0,2% −0,2% −5,3%
Soleimani (2020) +0,9% +1,9% −1,7% +14,4% −6,4% −21,3% −35,6% −24,5% +0,5% +1,2% −0,1% −7,2%
Israel–Hamas (2023) +0,4% +1,3% +20,9% +33,5% +5,9% −2,4% +2,9% −11,1% +0,6% −0,8% −1,8% −3,3%
Guerra de 12 Dias (2025) +0,8% +4,8% +14,2% −6,1% −8,9% −21,1% +0,2% +0,2% +0,2%
Média histórica −2,0% +0,0% +5,1% +13,1% +1,8% −3,9% −17,6% −6,6% 0,0% −0,4% −1,3% −4,5%

Fontes: Investing, Yahoo Finance. Elaboração: Ghia MFO.

Os dados revelam um padrão recorrente e estatisticamente robusto.

Curto prazo (1 semana a 1 mês): estresse inicial contido. O S&P 500 cai em média 2,0% na primeira semana, mas já se estabiliza no primeiro mês (média de 0,0%). O petróleo reflete as tensões na primeira semana — como está acontecendo agora — mas, na média, devolve a alta já no primeiro mês. O dólar permanece praticamente estável.

Médio e longo prazo (6 a 12 meses): reversão clara. O S&P 500 apresenta retorno médio de +5,1% em 6 meses e +13,1% em 12 meses. O petróleo devolve os ganhos iniciais de forma consistente e o dólar se enfraquece de forma gradual e persistente.

A principal exceção histórica é o 11 de Setembro (2001), único evento da amostra em que o S&P 500 registrou retorno negativo em 12 meses. Esse resultado, no entanto, reflete o estouro da bolha da internet e a recessão já em curso, não o evento geopolítico em si. Em todos os demais conflitos, o índice se recuperou e encerrou os 12 meses seguintes em território positivo.

Petróleo e o Estreito de Ormuz

O principal canal de transmissão deste conflito para a economia global é o mercado de petróleo — e aqui reside o risco mais relevante do cenário atual. Pelo Estreito de Ormuz transitam aproximadamente 20% de todo o petróleo mundial e 15% de todo o gás natural liquefeito. O Irã anunciou seu fechamento, embora a efetividade e a duração de um bloqueio ainda sejam incertas.

Historicamente, o comportamento do petróleo em conflitos segue um padrão claro: alta inicial acentuada, seguida de normalização à medida que a oferta se reequilibra. O cenário atual possui, contudo, uma particularidade importante: o envolvimento direto de países produtores do Golfo como alvos dos ataques iranianos. A refinaria de Ras Tanura, a maior da Arábia Saudita, foi atingida; operações de GNL no Catar foram suspensas; e portos nos Emirados e no Kuwait sofreram ataques. Esse é um fator que diferencia este episódio e que monitoraremos com atenção redobrada.

O principal risco não é a alta inicial do petróleo, e sim a duração desse movimento. Se os preços permanecerem elevados por meses, o canal de transmissão histórico se ativa: inflação persistente, aperto monetário e desaceleração econômica.

Existem, no entanto, amortecedores relevantes que não existiam em décadas passadas: os EUA são hoje exportadores líquidos de energia; Arábia Saudita e Emirados possuem capacidade ociosa significativa e oleodutos alternativos, como o East-West Pipeline, que contorna o Estreito; e reservas estratégicas globais podem ser acionadas.

Impactos na economia brasileira

O impacto macro para o Brasil depende essencialmente da duração do choque e do nível em que o preço do petróleo se estabilizar. O BTG Pactual produziu um estudo simulando os possíveis impactos em variáveis macro em diferentes níveis de estabilização da commodity. A leitura geral é que, se o aumento se perpetuar, há benefício para as contas externas e para o resultado do governo — mas impacto na inflação e, consequentemente, na trajetória dos juros.

  • Balança comercial: como exportador líquido de petróleo e derivados, o Brasil se beneficia parcialmente. No cenário de Brent a US$ 80, o superávit comercial aumentaria em US$ 8,5 bilhões em 2026.
  • Resultado primário: receitas ligadas ao setor de óleo e gás melhoram o fiscal. Com Brent a US$ 80, o primário do Governo Central melhoraria em R$ 23 bilhões (0,2% do PIB) e o do setor público consolidado em R$ 42 bilhões (0,3% do PIB).
  • IPCA: a alta pressiona combustíveis (efeito direto), etanol e fretes (efeito indireto). Com Brent a US$ 80, o impacto estimado é de +0,6 p.p. no IPCA de 2026 e +0,1 p.p. em 2027.
  • Modelo do Banco Central: considerando Brent a US$ 80 seguindo a curva futura, câmbio a R$ 5,20/US$ e ausência de amortecimento de repasse, a projeção do IPCA no 3T27 sobe de 3,1% para 3,3%.
Cenários de estabilização do Brent
Brent (US$/barril) Balança comercial (US$ bi) Primário Gov. Central (R$ bi / % PIB) Primário SPC (R$ bi / % PIB) IPCA 2026 IPCA 2027 IPCA 3T27 (BC)
65 (base) 4,1 3,8 3,1*
80 8,5 23,0 / 0,2% 41,9 / 0,3% 4,7 3,9 3,3
90 14,4 38,3 / 0,3% 69,8 / 0,5% 5,0 4,1 3,6
100 20,3 53,6 / 0,4% 97,7 / 0,7% 5,4 4,2 4,1

*Preço a US$ 70/barril. Fonte: BTG Pactual.

Conclusões

O cenário atual exige serenidade, disciplina e embasamento. O histórico de conflitos no Oriente Médio oferece uma bússola — não uma garantia — de que, na vasta maioria dos casos, a volatilidade de curto prazo cede espaço à recuperação dos fundamentos econômicos.

Sendo assim, o investidor que age no impulso, sem fazer a leitura completa do cenário e dos fundamentos, pode acabar tomando decisões precipitadas. Por outro lado, quem entende essa dinâmica pode se aproveitar de distorções momentâneas dos preços dos ativos para fazer movimentos táticos e de rebalanceamento.

Reiteramos nosso compromisso de que todas as decisões serão guiadas por dados, histórico e gestão de risco rigorosa. Estamos acompanhando o cenário em tempo real e seguiremos comunicando qualquer alteração relevante em nosso posicionamento.

Permanecemos à inteira disposição para esclarecer dúvidas, discutir cenários individuais ou agendar conversas sobre o impacto em sua carteira específica.

Time de Pesquisa e Alocação — Ghia Multi Family Office

Fontes: Investing, Yahoo Finance, BTG Pactual, Banco Central do Brasil, Reuters  |  Ghia Multi Family Office  |  04 de março de 2026

 

 

*Este material foi preparado pela Ghia Multi Family Office (“Ghia MFO”) e tem cunho meramente informativo, não constituindo consultoria ou aconselhamento legal de qualquer natureza. Embora as informações tenham sido obtidas de fontes consideradas confiáveis, nenhuma garantia ou responsabilidade, expressa ou implícita, é feita a respeito da exatidão, fidelidade e/ou totalidade das informações. A Ghia MFO emprega os melhores esforços para assegurar que as informações, opiniões, estimativas e projeções aqui contidas estejam atualizadas no momento de sua elaboração, mas não responde por alterações decorrentes de eventos futuros. Este material não constitui e não deve ser interpretado como solicitação de compra ou venda, oferta, convite, análise de valor mobiliário ou recomendação de qualquer ativo financeiro ou investimento, e não leva em consideração os objetivos de investimento, a situação financeira ou as necessidades específicas de qualquer investidor. Rentabilidade passada não representa garantia de rentabilidade futura. Os interessados devem procurar aconselhamento financeiro conforme seus interesses antes de tomar qualquer decisão de investimento, sendo esta de sua exclusiva responsabilidade.

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